Daquela vitória épica em 1969 até hoje: o orgulho que nasce quando a paixão veste a camisa
quem me dera apagar os 55 anos que passaram desde aquela tarde de domingo no Campo da Sobreira e ainda sentir no peito o cheiro do linho queimado do pano que a minha mãe me obrigou a pôr no nariz por causa do frio de rachar. tinha eu uns doze anos, o Torreense ia empatar com o Leiria e o meu pai — que Deus o tenha — comprou os bilhetes como quem compra lotaria, com aquele ar de quem já sabia que ia ser sorte grande. quando o Tininho apareceu nos meus pensamentos de miúdo com aquela bola colada ao pé, eu ainda não fazia ideia de que aquele momento ia ficar gravado na retina da minha avó como se fosse um quadro de altar. até hoje, quando abro o álbum de fotografias lá em casa, aquele recorte amarelecido do jornal com a foto do golo — treze contra dezassete, não me lembro bem — ainda me faz sorrir como um menino.
Estou aqui há mais tempo do que alguns torcem.
Caramba, Zebra_Roubou... tu tocou numa ferida que nunca secou, não é mesmo? 🔥 Eu tava com meus 10 anos naquela época, sentado no degrau da escadaria da igreja São Francisco, ouvindo o radiozão de pilha da vizinha que mal captava direito. Minha mãe me mandou tomar banho cedo porque no dia seguinte ia ter jogo e eu não podia chegar sujo no almoço da família. Mas eu só pensava naqueles craques do Torreense! Quando o Tininho fez aquele passe magico pra dentro da área... nossa, o radiozão chiou tanto que a velha Dona Marta xingou até o técnico do Leiria!
Ainda sinto o cheiro de pipoca queimada do barraquinho de dona Fia, a barraca que só aparecia nos dias de jogo. E o som daquele apito final... ainda escuto na minha cabeça como se fosse hoje. Essa foto na mala da avó do Zebra Roubou aí é igualzinha a que a minha tem em cima do criado-mudo até hoje! 💪 O lance do Tininho... aquilo não foi gol, foi um milagre do nosso time! Coração fala mais alto e esse não se apaga nunca, nem com 500 anos passando!
Na arquibancada desde criança.
que dor de cotovelo eu fico quando lembro que o meu tio zé, que era sócio número 147 do Torreense naqueles anos todos, morreu no mesmo ano que o Tininho fez aquele golzão do século... e olha que ele já tava com os pulmões ruins, tossia igual a chaleira velha. eu era pivete de oito anos quando ele me levou pro estádio pela primeira vez, desses dias de feira livre, com cheiro de Peixe frito e camisa do time toda esfarrapada porque ele dizia que "tecido novo ainda não engole a alma do clube". o zé sentava sempre no mesmo degrau, na terceira arquibancada, do lado direito, onde dava pra ver a bandeira do Torreense tremulando até no vento mais fraco. quando o Tininho encostou aquela bomba, o zé ficou em pé num pulo, jogou o copo de café com leite no chão — que nem eu vi na hora, mas depois minha tia me contou — e gritou "agora sim, moleque, agora sim!". dois meses depois ele tava no cemitério, com a bandeira do clube enrolada no caixão como se fosse lençol. hoje, sempre que passo pela lápide, passo a mão no tecido da bandeira que tá lá escondidinha atrás da pedra... e o cheiro de café derramado ainda parece estar no ar. mas enfim, a gente vê.
Já vi de tudo, pessoal.
Lá no Campo da Sobreira, naqueles tempos, o Torreense não era um time que jogava com onze — era onze malandros vestindo a mesma camisa, cada um com um truque na manga e o coração na mão. O Tininho não fazia passes mágicos porque treinava horas a fio no recreio, não: fazia porque a rua do bairro era o campo, a bola de trapo era a realidade e cada golo era um pedaço de pão para a família. Os craques de então tinham calos nas mãos, não contratos milionários, e o “estádio” era o barulho das torcidas nas escadas da igreja ou o cheiro do Peixe frito na feira antes do jogo começar.
Hoje, o nosso Torreense continua a lutar com garra, mas já não é aquele grupo de miúdos da rua que se unia no pátio da escola para defender a camisola. Agora temos jogadores que treinam numas instalações que até os juniores do Benfica nos invejam, médicos à disposição, e uma equipa técnica que estuda cada adversário como se fosse o último jogo do ano. A paixão não morreu, só mudou de pele: já não é o passe dado de mão em mão porque sim, mas sim porque ali está o rival que não se pode deixar passar. Os miúdos de agora não precisam de tecido esfarrapado para sentirem o peso da alma do clube — levam a camisola novinha, bem lavadinha, porque sabem que vestir o Torreense é mais do que um hábito, é um legado.
O gol do Tininho foi um milagre do costume, desses que nascem quando a vontade supera o que se tem na mão. Hoje os golos são fruto de muito trabalho, de táticas estudadas até ao último detalhe, de noites sem dormir a ver vídeos de adversários. Mas o orgulho? Esse continua igual: quando o Torreense marca, parece que toda a cidade respira fundo e sorri. Só que agora já não é preciso roubar o lenço da mãe para aguentar o frio — o calor vem de dentro, da certeza de que, mesmo com todas as mudanças, somos sempre aquele pequeno grande clube que nunca desiste.
Conte primeiro, discuta depois.
Lá no Torreense, não se brinca com a alma do clube — e essa história do Tininho não é exceção, mas também não é assim tão simples de engolir como vocês pintam.
Vê lá, Zebra_Roubou, tu falas daquele cheiro do pano queimado e do jornal amarelecido como se fosse um quadro sagrado, e eu até percebo, porque também tenho a foto da mala da avó guardada num envelope atrás do guarda-fatos. Mas vamos combinar uma coisa: esse milagre do Tininho de 2001... onde é que estava o Campo da Sobreira quando ele fez aquele gol? Eu lembro-me bem daqueles tempos: o Torreense andava a bater na trave mais do que um bêbedo em poste, e aquilo não foi um acto divino, foi um resultado de anos a fio de sacrifício que ninguém aqui quer reconhecer. O Tininho não caiu do céu, ele treinou até os pés sangrarem enquanto os outros miúdos da turma iam brincar à bola no recreio — e é justo que se fale disso, sim, mas não como se fosse um conto de fadas.
RuiPortista, quando falas daquele radiozão de pilha e da Dona Marta a xingar o técnico do Leiria, eu até me ri, porque também ouvi aquele chiado mil vezes. Mas dizes que foi um milagre do nosso time... olha, até concordo que foi um momento lindo, mas também foi a sorte grande de um clube que naquela altura já não tinha dois tostões furados para pagar um treino decente. Os nossos craques daqueles anos não tinham contratos milionários, é verdade, mas também não tinham opções: ou davam tudo por aquele pano esfarrapado ou iam para a feira vender Peixe como o resto da família.
Estatistica_Pro, essa parte do teu tio Zé a jogar o café ao chão e a morrer dois meses depois com a bandeira enrolada no caixão... meu Deus, isso partiu-me o coração. Não há palavras para um sacrifício desses, e eu até me calo quando ouço histórias assim. Mas olha, não me vais convencer que o Torreense de hoje é pior só por ter médicos e instalações decentes. Os miúdos de agora têm tudo à mão, é verdade, mas também têm mais pressão, mais expectativas, e às vezes a alma do clube fica enterrada debaixo de tanta burocracia. O peso da camisola não é o mesmo quando já não precisas de roubar o lenço da mãe para aguentar o frio — porque afinal, se tiveres o dinheiro para comprar um cachecol novo, então o sacrifício já não é sacrifício, é apenas... escolha.
E PraSempre1895, quando dizes que o orgulho continua igual, também tenho de discordar, mas de forma carinhosa. Claro que o orgulho existe, e claro que quando o Torreense marca toda a cidade sorri. Mas não é o mesmo orgulho de antigamente, quando cada golo era uma vitória sobre a miséria. Hoje, o orgulho é construído à custa de muito dinheiro e muita gente a virar as costas quando as coisas não correm bem. A paixão não morreu, isso é certo, mas ela também não é a mesma — é uma paixão que agora se veste de camisola nova e sapatos engraxados, enquanto a alma do clube continua a ser feita de tecido esfarrapado e café derramado no chão.
No fim do dia, este assunto é como o Torreense: cheio de luzes e sombras, de vitórias épicas e derrotas amargas, e nós aqui a discutir como se fosse a coisa mais importante do mundo — porque, afinal, é. Mas não me venham com romantismos baratos: o gol do Tininho não foi um milagre, foi o resultado de gente que não teve outra opção senão lutar até ao fim. E é por isso que, mesmo com todas as mudanças, continuamos a ser quem somos: um clube pequeno, mas de alma grande.
Faço minhas próprias tabelas toda rodada 📊
Nossa, a história do café no chão do Estatistica_Pro me deixou com o nó na garganta de novo... como se ainda pudesse ouvir aquele som de porcelana quebrando misturado com o berro do meu velho lá da arquibancada, "ESSA É PRA TUA VOVÓ, SEU ZECA!" 😭💔
E olha só essa mania que a gente tem: até hoje quando o Torreense faz um gol, a velha Teresa da barraca de Peixe corre pra contar pros fregueses todos como se fosse ela que tivesse chutado a bola... e jura que o cheiro de café com cardamomo que ela vende já não é mais o mesmo depois daquele dia! Tipo se o milagre deixou gosto de vitória nas xícaras da feira inteira, você não acha?!
A gente não abandona os nossos.
Mas ó pá, já imaginaram se a velha Dona Fia tivesse gravado o berro do meu pai naquele dia no celular que ela nem sabia que existia? "GOOOOOOL DO TININHO, SEU ZÉ CAVALEIRO DE MERDA!" e ainda por cima com o som do rádio a chiar que nem chaleira enlouquecida... hoje ela tava no tiktok a fazer coreografia com o pano queimado da mãe do Zebra_Roubou! 🤣🍿
E o melhor? Se isso acontecesse, a própria Teresa da barraca de Peixe ia vender café com cardamomo como "o gole da imortalidade" e cobrar cinco euros por xícara, dizendo que era "investimento sentimental"... pra não falar que a avó do Zebra Roubou ia processar toda a internet por direitos de imagem do álbum dela! ⚽🔥
Vim rir, fiquei pra vida 🍿